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Diego Casaes - My Blog
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Há uma ética própria da blogosfera?

Foto por Roberto Ortega, no Flickr.

Foto por Roberto Ortega, no Flickr.

Nos últimos três dias participei de um curso de extensão na FACOM – Faculdade de Comunicação da UFBA ministrado pelo professor, escritor e jornalista Francisco Karam. O curso, intitulado “A Ética Jornalística na Sociedade de Informação” procurou delinear aspectos de uma ética e deontologia (dever ser) próprios do fazer jornalístico e vincular procedimentos específicos da prática a um fazer ético desenvolvido com o tempo.

Muito se debateu durante os três dias, e a habilidade de orador do professor Francisco é simplesmente fenomenal. Discutiu-se o papel da ética jornalística em diversos momentos da história e como a sociedade de informação e a contemporaneidade dos fatos que empurra as práticas sociais a se adaptarem, também influenciam o jornalismo e a ética do cidadão e ética no jornalismo.

No entanto, entre perguntas e indagações do prof. Karam, algo ficou bem claro no que tange a tecnologias de informação e comunicação, jornalismo e participação cidadã nas práticas jornalísticas: não existe uma dedicação temporal por parte os cidadãos-jornalísticas ainda e talvez por isso o “título” de jornalista não possa, ou não deva, ser aplicado a essas pessoas. Há, na formação jornalística, uma estrutura que permite orientar o indivíduo à exclusividade de direitos e capacidades do jornalismo em si.

Mas não é bem isso que quero discutir nesse post. Por se tratar de um curso de ética, e sabermos que o tempo exige adaptações de ideologias e códigos humanos outrora predominantes, fico curioso em saber se realmente há uma ética e uma deontologia típica da blogosfera, principalmente  entre blogs brasileiros, já que tanto se fala no rompimento de paradigmas informacionais e na retomada da informação por parte do público.

Conhecemos, entre os blogs brasileiros, algums acordos de cavalheirismo típicos de blogs em qualquer lugar do mundo, mas que nem sempre se concretizam. Há aqueles que usam Creative Commons, que possuem uma linguagem diplomática e que abordam fatos (quando são blogs “jornalísticos”) de maneira bastante peculiar. Entretanto, é fácil de se achar também vários plagiadores, que copiam conteúdo sem dar a mínima pra fonte, que surrupiam fotos e que abusam do escárnio nos artigos.

Além disso, há os tão bem-vindos comentários, que pouco adicionam para o artigo em si, e divergem até mesmo de uma ética cidadã. Talvez isso aconteça pois, como costumo dizer e bato firme nessa tecla, há ainda indivíduos que confundem a Internet, tratando-a como uma esfera anárquica em que se pode falar de tudo, para todos e de todos os modos, sem se preocupar com opiniões divergentes das suas.

Se estendermos o conceito de blogosfera e considerarmos o Twitter como um braço dos blogs – o que realmente passou a ser – percebe-se ainda mais um ruído e um fluxo de informações desgovernado, embora útil à sua própria maneira. Uma rede de contatos do Twitter é espelho dos interesses de uma pessoa: se você segue usuários que postam bom conteúdo, o Twitter será bom para ti e será compatível a uma ética cidadã de comportamentos e práticas na web.

Em contrapartida, se alguém usa o Twitter de maneira diferente do que se pensa ser uma rede de troca de conteúdos que vão acrescentar algo a alguém, esmaga-se a ética e se negligencia fatores importantíssimos que estão atrelados à uma nova ética da sociedade da informação e da Internet como ferramenta do conhecimento.

Percebo que há uma certa vontade de alguns indivíduos, algo muito pontual e específico, em criar uma rede de blogs tipicamente brasileira que não estejam somente olhando para seus próprios umbigos. Blogueiros que, em cada uma de suas especificidades, sintam-se parte de algo maior e trabalhem sob um modelo deontológico fértil e criativo.

Confesso e compreendo que, até mesmo no Jornalismo que é uma atividade de muitos e muitos anos há uma certa dificuldade em se compreender uma ética ou código de conduta – que em todos os casos há um compromisso com a verdade, verossimilhança, exatidão e precisão, como apontado nas palestra do prof. Karam. Nos blogs, as dificuldades se intensificam por causa da fluidez inexata e aparentemente incontrolável dessa mídia.

Alguns já estão considerando blogs como espaços antigos da Internet, que nada mais significariam para a geração do efêmero no Twitter e em outros serviços de microblogging espalhados pelo ciberespaço. Mas será que já utilizamos todas as potencialidades dos blogs? Mesmo sendo recente nesse assunto – ou justamente por causa disso – acredito que o caminho é inverso, sentimento que muitos blogueiros compartilham comigo. O Twitter e outras ferramentas são braços, mas é no blog que se trabalha as ideias com mais dedicação, pesquisa e atenção. Não seria esse o momento de pensar em uma ética própria da blogosfera? Talvez expressa em um manifesto, quem sabe?

A ética, nesse sentido, e a deontologia na atividade dos blogs, permitiria repensar conceitos e práticas, além de metodologias, dos diversos tipos de blogs espalhados pela rede. Pensar de acordo com uma ética criteriosamente voltada aos blogs e suas peculiaridades garantiria a longevidade do ato de blogar, conferindo um status que eventualmente conseguiria capturar a atenção da sociedade para dar crédito aos blogs como espaços criativos e informacionais.

Muitos blogueiros brasileiros vivem ocupados em discussões bilaterais de insultos e trolls, além dos eventuais cochichos e escárnios disparados quando um ou outro post diverge das opiniões do leitor. Acredito que esse seja um dos principais problemas que deveríamos tratar mais cautelosamente, mas que infelizmente é reflexo da sociedade brasileira como um todo, tipicamente mal educada, arrogante e aversa aos valores éticos e morais, apesar de aparentemente dizerem defendê-los.

Não consigo enxergar atualmente um ética própria da blogosfera brasileira. Vejo indícios de que está se criando um conceito próprio de blogs no Brasil, que vai desde o entretenimento até o ativismo político e ambiental. Isso é, sem dúvida, um fato. Mas não há códigos explícitos de como se deve agir nas relações entre blogs, nos contatos com o leitor e nas referências a um ou outro blog. A ética que existe agora é a ética do cidadão comum transplantada para a Internet, mas que não contempla todos os aspectos do cotidiano digital.


August 27, 2009 | 11:08 AM Comments  0 comments

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